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5 de jan. de 2010

falas

FÁBULA DO VENTO E DA FORMA

dizemos vento para dizer
o frágil, efêmero,
o que se mostra inalcançável
ou já não tem fundamento

também
acaso
impulso
destino

assim reunidas
essas palavras passam
a permutar suas atmosferas
respectivas

que nada têm
do vento quando
parece acompanhar
o curso d'água
e duplicá-lo

como se antes mesmo
de completar sua passagem
se dissipasse
num movimento
acima dos sentidos

outro, como se sabe,
é o desígnio da forma,
não só o de querer
persistir pela combinação
de suas cláusulas

mas desdobrá-las
em metamorfoses sempre dispostas
a absorver em si mesmas
o que lhes resiste
ou se mostra inalcançável

até tocar o limite
de sua própria negação
como o vento
sobre a harpa eólia
ou nos móbiles de Calder

Duda Machado
em Margem de uma onda

4 de jan. de 2010

um poema irresistível, pra recomeçar

PASSAGEM DO ANO

O último dia do ano 
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com [sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirá o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão esperas o amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve!

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Carlos Drummond de Andrade
A rosa do povo

1 de dez. de 2009

outra jogada

XADREZ PROFUNDO

A própria vida como um campeonato de xadrez
                                              duelo de soturnos jogadores
                 num campo quadriculado
                                     em que só você tem
                 um tempo limitado
                                      pra cada jogada
E o teu relógio está andando
                                             o tempo todo
          se você demora
                                    demais
                                               num lance
                esse tempo será descontado
                                                              do resto
                                    da tua vida
E o teu adversário
                            escuro ou claro
             (que pode ou não ser
                                              a própria vida)
te sacando com seus olhos fundos
     ou indecentemente retorcendo as sobrancelhas loucas
       ou soprando fumaça na tua cara
          ou cruzando e descruzando as pernas dele
                                                                    ou dela
ou qualquer coisa assim
      agindo como um deus insolente e invulnerável
                                                     invencível
           capaz de ler tua mente & coração
E uma jogada apressada
                                       pode ser o teu fim
   pois você tem que jogar
                                        xadrez profundo
   (como a única partida profunda que Spassky ganhou de Fisher)
E se a sua abertura descuidada
                                                 não foi muito brilhante
        tem que jogar pra ganhar não basta o empate
              e de repente descobrir
                                               uma nova variante Nabokov
E então derrubá-lo por fim
                      com um ataque final
                                     que ninguém jamais sonhou

E ainda há tempo –
                               Tua vez

Lawrence Ferlinghetti
em Vida sem fim

28 de nov. de 2009

os pagantes

-->
Eclesiastes

Tempo de foder
tempo de não foder
saber gerir
os tempos
compor
saber estar sozinha
para saber estar contigo
e vice-versa
aqui estão as minhas contas
do que foi

Adília Lopes

27 de nov. de 2009

fresta

Adormecer
(com algumas coisas de Maria Tereza Horta)

Preciso de te tocar
caule
gato
corda
mão
abraço-te
a tua roupa
tu
não te divulgo
o teu nome
os teus olhos azuis
a tua gentileza
espero que os partilhes
com alguém querido
como os partilhaste
comigo
amante querido
que não perco
que não deito fora
os meus amantes
não são Gillettes
(não são de usar
e deitar fora)
embora eu seja
uma poetisa pop
e não tenha amantes
gosto de adormecer
a lembrar-me de ti
de como me sorrias
de como me olhavas
se os meus poemas
contribuíram para isso
são excelentes

Adília Lopes

8 de nov. de 2009

guerra


Dois bigodes me assombram. As listras do tigre são artifícios do medo. O medo que o tigre sente e provoca. Será esse medo o que causa tanta leveza? Um medo-movente. Passo leve, atenção ao menor ruído, o disfarce, a indiferença, o corpo tensiona, se arma, dá o bote. Dente na carne, fina marca. O medo transformado em raiva.

eh


7 de nov. de 2009

mia em malaio

   

Os tigres não querem as ruas calçadas. Os tigres precisam tocar suas patas no chão, na areia, no barro, na grama. Tigres não compreendem a velocidade das máquinas, querem estar em paz com suas listras e seus bigodes, querem apenas um canto tranqüilo pra deitar sob sol, um tronco áspero para afiar suas garras, água corrente para aplacar sua sede. O tigre da Sumatra é apenas uma subespécie em extinção, mas ainda é um tigre, conserva sua nobreza e dignidade. Há certos tigres que sabem o momento de dar as costas, se coçam para demonstrar sua indiferença e fecham seus ouvidos quando se cansam da conversa. Havia um tigre que paralisava feito estátua e fingia não estar ali. O tigre amacia o ninho antes de deitar, sem pressa e com prazer. Dizem que alguns tigres têm a faculdade de prever os fatos, e aceitam a sina, sentem a velocidade passar em silêncio.

eh