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16 de set. de 2013

todo esse vão mudar e os deuses do esquecimento

         Fábulas não são parábolas, nenhum sentido oculto, toda fábula é feita de luz. Moral da história, histórias são amorais. Na geração de fábulas, os homens cifraram o desejo infinito de uma vida sem fim. O amor é amoral. Eu me amo, não posso viver sem mim. Em pedra? Em estrela? Em flor? Façam suas escolhas. Em que vou me transformar, no final? Quem acertar, ganha o direito de olhar bem nos olhos da Medusa. Não é uma beleza? Quem não gostaria de ser estátua de si mesmo? Metamorfose, quando é demais, cansa. Quem me dera uma máscara para repousar meu rosto de todo esse vão mudar. Não se pense que vou ficar assim a vida toda. Um dia eu mudo, vão ver. No carnaval de transformações, passa a sombra da Medusa, dor sem fim de virar pedra. Sempre virar, sempre mudar, nunca se sustentar em seu próprio ser. Esta fonte é uma sopa de mentiras, um abismo de ilusões. O lugar de origem dos seres sem substância, feitos apenas de vagas impressões, enredos inverossímeis e esperanças inúteis. Tudo são deuses, o medo, o acaso, a esperança, tudo filhos do destino. Esta fonte funda dá para o inferno, vai dar no reino de Hades. Mergulhasse aqui, a terra das sombras, dos sonhos loucos, a trava do medo. No fundo, lá no último íntimo fundo desta fonte, Hades, o fim. [...]


         Como é que se chama a moeda que se põe na boca do morto para ele pagar a passagem na barca de Caronte? Naulo? Saulo? Paulo? Pague, e passe por Cérbero. Beba a água do Estige, o rio do esquecimento, lotofagos, amnésia, sete anos de Ulisses nos braços de Circe. Memória, também um deus? Nem me lembro mais. Lembro de um rio de água limpa, água rápida, muitas águas rápidas, nunca se bebe de novo no mesmo rio. Rios passam, não passa esse meu rosto. Esta carne se vai, o reflexo demora mais um pouco, esquecer é um dom dos deuses. Esta fonte fosse vinho, pai Dionísio, lembrar é insuportável. A dor é um deus, dor ninguém esquece. 

Paulo Leminski, em Metaformose

13 de mai. de 2013

maiúsculas e minúsculas

Pequeno raciocínio fantástico 
ou
O delírio teórico da baronesa


Mas é a verdade, eu vivo e escuto do que eu vivo ao mesmo tempo.
Ouço um noturno discurso a me descrever exatamente isto em pormenor.
Tudo me leva a crer que se trata do Texto Perfeito da minha própria vida, da Biografia Ideal, que se produz como texto simultaneamente à vida. Ao ouvir este longo texto, um  pouco encantada sem dúvida, percebo que o seu segredo é ter encontrado a perfeita harmonia entre as palavras que se pensam (a grafia da vida) e a realidade sem palavras (a própria vida que me vive). Percebo ainda que sou eu também que escuto em surdina o velho discurso que me grafa. 
E finalmente vislumbro maravilhada que
sou eu que escrevo, agora, aqui neste cais deserto onde entra sem ser visto um velho cargueiro inglês. Percebo que o seu segredo é que, ao dizer "eu", este texto realiza a conjunção entre o real (esta minha vida ou quem a viva), o simbólico (este discurso ou o pronome eu que aqui deliro) e o imaginário (este ouvir constante da minha própria biografia); e, ao realizar esta conjunção, manifesta também o momento que consciente e inconsciente se encontram sobre as pedras úmidas do porto e ao que tudo indica é aí que são produzidos clandestinamente desejos informuláveis. O desejo que me foi devolvido (formulo agora) é o de não ser apenas uma Personalidade (que são as únicas personalidades que ganham - eu não disse "merecem"- biografias).
MERA QUESTÃO DE MAIÚSCULAS OU MINÚSCULAS.

... E assim torturada a minúscula baronesa de macau imita seu cônjuge e rola pelo chão sob os olhares espantados do escritor Carlos Saldanha e da sua falsa coruja, enquanto ecoam pela sala as palavras do seu mestre:


"E basta de comédias na minh`alma!"



Ana Cristina Cesar, Antigos e soltos

9 de abr. de 2013

cara a cara com você, ou Na beira

discurso fluente como ato de amor
incompatível com a tirania
do segredo

como visitar o túmulo da pessoa
amada

a literatura como clé, forma cifrada de falar da paixão
que não pode se nomeada (como numa carta fluen-
te e "objetiva").

a chave, a origem da literatura
o "inconfessável" toma forma, deseja tomar forma,
vira forma

mas acontece que este é também o meu sintoma,
"não conseguir falar" = não ter posição marcada,
ideias, opiniões, fala desvairada.
Só de não ditos ou de delicadezas se faz minha con-
versa, e para não ficar louca e inteiramente solta nes-
te pântano, marco para mim o limite da paixão, e me
tensiono na beira: tenho de meu (discurso)
este resíduo.

Não  tenho ideias, só o contorno de uma sintaxe (= ritmo).

Ana Cristina Cesar, Inéditos e dispersos

14 de mar. de 2013

o pedregulho

Vejam, quando se tem uma espécie de abismo em si, que aumenta a cada instante... Para muitos, é um precipício. E o que faz um homem que chega à beira do precipício, que tem vertigem? Instintivamente, ele olha para o mais perto possível - vocês o fizeram, vocês viram outros fazerem. É simples, é a coisa mais simples. Leva-se o olhar ao degrau imediato ou ao pilar, à balaustrada, ou a um objeto fixo para não ver o resto. À beira do abismo, o homem não construirá uma filosofia da queda ou do desespero. Olhará com muita atenção para o pedregulho para não ver o resto. Agora acontece de o pedregulho se abrir por sua vez e tornar-se também um precipício. Assim, qualquer objeto, basta querer descrevê-lo, abre-se por sua vez, torna-se um abismo. Mas esse abismo pode se fechar. É menor. É possível, pelos meios da arte, voltar a fechar um pedregulho. Não é possível voltar a fechar o grande buraco metafísico. Mas talvez a maneira de voltar a fechar o pedregulho valha para o resto, terapeuticamente. Isso faz com que se continue a viver por mais alguns dias.

Francis Ponge, Métodos

28 de nov. de 2012

Lakshmi


GATA

      De neve, de uma maciez de arminho e lactescência de neve, de uma nervosidade frenética, era luxuosa, principesca, de certo, essa orgulhosa gata.
      As Esmeraldas dos seus olhos claros fosforeavam sensualmente, eletricamente, quando alguém, no conforto da casa, lhe acarinhava de manso o dorso, o focinho tenro, polposo, espiguilhado de prateados fios sutis; e, no seu lindo pêlo cetinoso e alvo, como numa fresca e virginal epiderme de mulher aristocrata, perpassava um frisson de ternura, um estremecimento, como se em toda ela vibrasse alguma fibra de espiritual e amoroso. 
      E era então fidalga nas sensações, no ronronar apaixonado, ao luar, sob o cintilante cristal das estrelas, pelas caladas vastidões da noite, ou, nas horas de sesta, nos quentes, enlanguescedores mormaços, preguiçosa e fatigada, anelando o repouso, numa onda de gozo e volúpia , enroscada, serpenteada, torcicolosa e convulsa, como um organismo suave e débil que um vivo azougue eletriza e agita.
       Talvez fosse a alma de alguma vaporosa rainha que ali vivesse nesse precioso animal, alguma misteriosa visão polar dentro daquele feltro branco, daquela pelúcia rica, daqueles flocos eslavos; algum sonho, enfim, errante, vago, perdido nesse nobre exemplar felino de formas lascivas, flexuosas e delicadas. 
      Às vezes, mesmo, ela errava, como a nômade que perde a rota da caravana pelos desertos escaldados de sol, em busca de alimento; e os seus olhos, penetrantes no verde úmido e agudo das luminosas pupilas, mais até fantasiosa a tornavam e mais nevoeiro davam à sua lenda de fadas.
      E assim, arminho girante, que as quatro veludosas patas faziam fidalgamente caminhar, miando histérica, era como uma sonâmbula idealizada e amante que soluçava e gemia implorativamente a sua dor, através de aposentos, na indiferença de quase todos.
       Um dia, porém, uma doce mão feminina e perfumada quis tê-la junto de si e levou-a consigo para a tepidez e a pompa das alcovas cheirosas, vivendo com ela ao colo, passando-lhe os íntimos alvoroços do seu sangue de Virgem – como se a gata fosse um profundo seio de afagos  a que ela confiasse todos os seus mistérios e segredos de Noiva ainda presa no claustro cerrado, como as monjas normandas, da carne inquietante e alucinadora.
       Agora, com a formosa seda do pêlo vibrando à carícia, alta e feliz a cabeça artística, vive nesse colo impoluto, em sonhos deliciosos e gozos infinitos de orientalista, o belo exemplar felino, branco, voluptuoso e dolente como a lua embalada e cismando, imaculadamente, no seio azul das Esferas.


Cruz e Sousa, Missal

25 de nov. de 2012

zoophilia

Por onde andará Stephen Fry?


Por onde andará Stephen Fry?
Por onde andará Stephen?
Ninguém sabe do seu paradeiro
ninguém sabe pra onde ele foi
pra onde ele vai
Stephen may be felling
all alone
Stephen never do this again
come back home
Se correr o bicho pega Stephen
se ficar o bicho come

Zeca Baleiro




Stephen Fry não era uma cadela como as outras. Isso era perceptível a qualquer um que se deparasse com ela. Como se não bastasse sua aparência um tanto estranha, uma combinação de raposa com pincher ou sabe-se lá o quê (muitos foram os que tentaram adivinhar os componentes da mistura), fazia uso de dotes dramáticos muito refinados. Ah, e usava meias, quatro meias soquete. Stephen Fry também possuía muitos nomes e a todos atendia com a mesma indiferença se não viessem acompanhados de um suculento pedaço de carne ou de uma porção de arroz, puro mesmo. É que no final da vida lhe restavam poucos dentes, triturar a ração já era um grande esforço. Mas, mesmo antes disso, talvez já prevendo as limitações futuras, Stephen se aprimorou na arte dramática. Ao perceber movimentação ao redor da churrasqueira – qualquer uma da vizinhança – para lá se dirigia, sem demoras, com seu passo curto, abanando a cauda de esquilo. Ou de raposa. Ou de um mini-pastor alemão capa-preta. Tanto faz. Chegando perto da churrasqueira e das pessoas, já começava a demonstrar toda sua astúcia: tossia, espirrava, cheia de tremeliques, gania e fungava como se tivessem mesmo chegado os seus últimos minutos. Claro que era recompensada, seu engenho era certeiro e capaz de atingir até os corações mais duros, que não lhe negavam uma lasquinha de carne ou migalha de pão. Alegria maior aos domingos! Passava de casa em casa, fazendo o seu show. Ninguém da vizinhança sabia sua idade, todos afirmam que ao chegar ela já estava ali. Ela não tinha paciência pra alegria imbecil dos cachorros mais jovens, achava muito metidos os gatos com suas superioridade e malemolência. Gostava mesmo de ser acariciada com uma vassoura dura, o instrumento mais adequado para o seu pelo espesso. Stephen Fry sabia bem se passar por vítima quando, na verdade, era uma rainha! Seus latidos imperativos faziam o dono lhe abrir o portão ou lhe servir um pote de água fresca mesmo no meio de uma madrugada fria. Era educada, isso sim! Não sujava seu próprio terreno de jeito algum, mesmo que precisasse aguardar alguns minutos para escapar durante a passagem de alguém pelo portão e ir ao mato vizinho. Daí aproveitava o momento para passear pelas suas antigas casas ou cochilar na grama, sob o sol. Em um de seus passeios Stephen Fry foi encontrada pelo terrível casal do carro grande azul. O casal do carro grande azul se acha muito importante, demonstra sua importância com seu carro grande azul. O casal viu Stephen um dia, fizeram uma série de suposições sobre os bichos com os quais Stephen se assemelhava – um esquilo, uma raposa, um pincher -, nenhuma era inédita. O casal do carro grande azul sentiu pena de Stephen ao ver sua perna trêmula, sua língua de fora, seu olho cego, seu passo lento e achou que sabia bem aquilo de que Stephen precisava. Foi então que levaram Stephen no seu carro grande azul, para sua grande casa rosa, com mais três poodles e um chiwawa. Ao final do mesmo dia em que Stephen chegou na grande casa rosa do casal do carro grande azul, foi levada para outro lugar estranho, com cheiro estranho. Ela, que não sabia o que eram vacinas ou vermífugos, e nunca havia ido a um pet-shop, gostou do banho e também do ar quente do secador. Mas achou uma bela porcaria os lacinhos e o perfume. Ela agora tem uma almofada limpa e cheirosa, mas daria tudo pra voltar ao velho bairro, aos churrascos de domingo, aos cachorros e gatos companheiros de tantas jornadas, ainda que fosse para dormir em cima de um saco de carvão e acordar com suas meias soquete brancas bem pretinhas... Ela, que vira o bairro crescer tão rapidamente e ainda preferia as ruas antes do calçamento, antes de tantas casas. Mas o casal do carro grande azul não entende o comando de seus latidos e lá na casa grande rosa toda sua técnica de encenação não tem surtido o menor efeito! O jeito agora é se resignar à vida na casa grande rosa e suportar o latido estridente dos poodles e do chiwawa. Quando eles se aproximam para dividir o calor e compartilhar a almofada, Stephen não tem pena e dá o bote. Certeiro. Ah! Se ainda lhe restasse algum dente...


eh

2 de nov. de 2012

andar no mundo

Hábitos e atenção
     A primeira de todas as qualidades é a atenção - afirma Goethe. No entanto, ela divide a primazia com o hábito que luta com ela desde o primeiro momento. Toda atenção deve desembocar no hábito se não pretende desmantelar o homem; todo hábito deve ser estorvado pela atenção se não pretende paralisar o homem. Atenção e hábito, assim como repulsa e aceitação, constituem cristas e depressões de ondas no mar da alma. Mas este mar tem suas calmarias. Sem dúvida, uma pessoa que se concentre totalmente num pensamento aflitivo, numa dor e seus abalos, pode se tornar presa do ruído mais tênue, de um murmúrio, do voo de um inseto, os quais um ouvido mais atento e mais aguçado não teria talvez percebido de modo algum. A alma - assim se pensa - se deixa desviar tanto mais facilmente quanto mais concentrada está. Porém, não será esse escutar atento menos o fim do que o desenvolvimento extremo da atenção - o instante em que ela deixa emergir de seu próprio âmago o hábito? Este zunido ou sussurro é o umbral, e despercebidamente a alma o ultrapassou. É como se não mais quisesse retornar ao mundo habitado; vive agora num mundo novo onde a dor é o seu oficial de acantonamento. Atenção e dor são complementos. Mas também o hábito tem um complemento, e atravessamos o seu limiar no sono. Pois o que se realiza em nós durante o sonho é um perceber novo e inaudito que, no regaço do hábito, luta para se safar. Acontecimentos do dia a dia, conversas triviais, o resíduo que ficou em nosso olhar, o pulsar do próprio sangue - isso, antes despercebido, forma, de modo irreconhecível e supernítido, a matéria dos sonhos. Nos sonhos - nenhum assombro; na dor - nenhum esquecimento, pois ambos já trazem em si o seu oposto, como as cristas e as depressões das ondas que, na calmaria, estão acomodadas umas sobre as outras.


Montanha abaixo
      A palavra abalo tem sido ouvida abusivamente. Com relação a isso, alguma coisa bem poderia ser dita em sua honra. Em momento algum ela vai se afastar do mundo físico e, acima de tudo, vai se ater a um ponto, ou seja: o abalo conduz ao desmoronamento. Querem, pois, dizer - aqueles que nos asseguram de seu abalo a cada premiére ou a cada novidade - que algo neles desmoronou? Ah, a frase que estava estabelecida antes, continua estabelecida depois. Como poderiam também conceder a si próprios a pausa à qual só o desmoronamento pode suceder? Ninguém nunca a sentiu com maior nitidez que Marcel Proust na morte da avó que lhe pareceu consternadora, mas de modo algum real - até que, à noite, ao tirar os sapatos, lhe vêm lágrimas. Por quê? Porque ele se curvou. Assim, o corpo é o que desperta justamente a dor profunda e pode igualmente despertar o pensamento profundo. Ambos precisam de solidão. Quem alguma vez escalou sozinho uma montanha e chegou esgotado ao topo para em seguida descer com passos que abalam todo o seu esqueleto sabe que, para ele, o tempo se desagrega, as paredes divisórias em seu interior desabam e, através dos cascalhos dos instantes, ele caminha trotando como num sonho. Por vezes tenta parar, mas não consegue. Quem sabe se são pensamentos que o abalam ou o áspero caminho? Seu corpo se tornou um caleidoscópio que, a cada passo, lhe apresenta figuras cambiantes da verdade.

Walter Benjamin,  trechos da "Sequência de Ibiza",  Rua de mão única