[a partir da pergunta-convite da Ju Ben]
ela falou que certos enganos são necessários. não tive forças para discordar, dizer qualquer coisa seria comprovar o indispensável do equívoco. fui embora quase imediatamente, andei por muitas ruas, o olhar perdido e confuso, não sabia bem como levar a coisa estranha, o engano, a ingenuidade. me apaixonei de novo aos 75 anos, afirma Isabel Allende no jornal. um amigo avisa que respondeu minhas perguntas por e-mail, mas não todas. rio, gargalho, a vida já não me permite a ilusão das respostas. ele escreve que ainda é medo pra isso. medo não, * cedo. o corretor interfere. como sabe? um animal atravessa meu caminho correndo em ziguezague e quem o atropela sou eu. carregamos o acidente no corpo e sinto vergonha. sou violenta e agressiva como o vento forte demais daquela noite, as telhas no chão espatifadas. o pior é que todo mundo vê a casa descoberta mas só quem mora sente a água chovendo dentro, meses depois. e nem é de todo mal, o frio arrepia e lembra que a vida pulsa forte e incontrolável enquanto exige cuidado e proteção. gostei tanto de chegar sozinha no exato instante em que a lua vermelha despontava acima da linha do mar, de ter enfrentado o frio, a dor e certa dose de precaução para assistir suas mudanças de cor durante a subida que, hipnotizada, ainda tento adivinhar os desenhos que marcam a outra face.
eh
29 de mai. de 2018
26 de mai. de 2018
reparo em mim
trago farpas de cais nos versos
terra firme e náusea
cambaleio
por essas ruas secas
escondo meus mundos
não te conto muito
escorre neon do fundo dos olhos
explode o céu
nossos corpos
nossos fogos
sobra um pouco de mel (sobra pouco mel)
o vento arranca flores do chão
procuro suas pegadas no cimento duro
na luz perdida entre as heras garradas ao muro
pequenos reparos
não muito
daqui eu ouço o rio correndo
daqui de cima
olho o mundo em silhueta
leio de poemas (perco palavras de um poema que não
soube escrever)
que nunca soube escrever
meu muro cheio de cacos
daqui tudo é perigoso
escute o céu, o mar e o chão
ainda escuros (indefiníveis)
brilhando os passos
mudando nomes ruas curvas
Omar Salomão, em Pequenos reparos
terra firme e náusea
cambaleio
por essas ruas secas
escondo meus mundos
não te conto muito
escorre neon do fundo dos olhos
explode o céu
nossos corpos
nossos fogos
sobra um pouco de mel (sobra pouco mel)
o vento arranca flores do chão
procuro suas pegadas no cimento duro
na luz perdida entre as heras garradas ao muro
pequenos reparos
não muito
daqui eu ouço o rio correndo
daqui de cima
olho o mundo em silhueta
leio de poemas (perco palavras de um poema que não
soube escrever)
que nunca soube escrever
meu muro cheio de cacos
daqui tudo é perigoso
escute o céu, o mar e o chão
ainda escuros (indefiníveis)
brilhando os passos
mudando nomes ruas curvas
Omar Salomão, em Pequenos reparos
10 de mai. de 2018
celebrar os ciclos comigo
eu durmo comigo/ deitada de bruços eu durmo
comigo/ virada pra direita eu durmo comigo/ eu
durmo comigo abraçada comigo/ não há noite tão
longa em que eu não durma comigo/ como um trovador
agarrado ao alaúde eu durmo comigo/ eu durmo
comigo debaixo da noite estrelada/ eu durmo comigo
enquanto os outros fazem aniversário/ eu durmo
comigo às vezes de óculos/ e mesmo no escuro sei que
estou dormindo comigo/ e quem quiser dormir comigo
vai ter que dormir do lado
Angélica Freitas, em Um útero é do tamanho de um punho
comigo/ virada pra direita eu durmo comigo/ eu
durmo comigo abraçada comigo/ não há noite tão
longa em que eu não durma comigo/ como um trovador
agarrado ao alaúde eu durmo comigo/ eu durmo
comigo debaixo da noite estrelada/ eu durmo comigo
enquanto os outros fazem aniversário/ eu durmo
comigo às vezes de óculos/ e mesmo no escuro sei que
estou dormindo comigo/ e quem quiser dormir comigo
vai ter que dormir do lado
Angélica Freitas, em Um útero é do tamanho de um punho
11 de abr. de 2018
subsistência
[OS NOMES QUE DOU À ESPERANÇA]
[minha esperança tem muitos nomes. por exemplo, serrote. por exemplo, martelo.]
[chamo-a igualmente de enxada, goiva, prumo e bússola.]
[assim que a esperança se posiciona na paisagem, trato de chamá-la lápis, caderno, apontador.]
[em certos momentos, nomeio a minha esperança de semente, mas logo sei que melhor será chamá-la arado, lavoura, plantio e colheita.]
[em outros instantes, quando das travessias impossíveis, chamo-a barco, barcaça, navio.]
[dou sempre à minha esperança os combustíveis do movimento.]
[se adoentada, frágil e anêmica, trato de dar à minha esperança os sapatos do andarilho.]
[levo comigo o odre com a água para que a minha esperança não morra de sede.]
[levo comigo o odre com o vinho para que a minha esperança não morra de tristeza.]
[levo comigo as cores todas da paleta de cores para que a minha esperança possa estar pronta para os bailes e as alegrias.]
[há um nome que muito aprecio dar à minha esperança. este: o nome mão. a mão em côncavo para receber, a mão tesa para o trabalho.]
[há um nome que muito aprecio dar à minha esperança. este: dia. o dia que começa, o dia que atravessa, o dia que chega à tarde com os seus minutos todos plenos de verbo fazer.]
[para minha esperança, sempre encontro um verbo-flecha, um verbo-dardo, um verbo-seta, esses verbos todos inquietos.]
[a minha esperança tem sempre o corpo inconformável, e mesmo nos predomínios do desânimo ela encontra a correnteza dos rios.]
Paulinho Assunção, daqui
[minha esperança tem muitos nomes. por exemplo, serrote. por exemplo, martelo.]
[chamo-a igualmente de enxada, goiva, prumo e bússola.]
[assim que a esperança se posiciona na paisagem, trato de chamá-la lápis, caderno, apontador.]
[em certos momentos, nomeio a minha esperança de semente, mas logo sei que melhor será chamá-la arado, lavoura, plantio e colheita.]
[em outros instantes, quando das travessias impossíveis, chamo-a barco, barcaça, navio.]
[dou sempre à minha esperança os combustíveis do movimento.]
[se adoentada, frágil e anêmica, trato de dar à minha esperança os sapatos do andarilho.]
[levo comigo o odre com a água para que a minha esperança não morra de sede.]
[levo comigo o odre com o vinho para que a minha esperança não morra de tristeza.]
[levo comigo as cores todas da paleta de cores para que a minha esperança possa estar pronta para os bailes e as alegrias.]
[há um nome que muito aprecio dar à minha esperança. este: o nome mão. a mão em côncavo para receber, a mão tesa para o trabalho.]
[há um nome que muito aprecio dar à minha esperança. este: dia. o dia que começa, o dia que atravessa, o dia que chega à tarde com os seus minutos todos plenos de verbo fazer.]
[para minha esperança, sempre encontro um verbo-flecha, um verbo-dardo, um verbo-seta, esses verbos todos inquietos.]
[a minha esperança tem sempre o corpo inconformável, e mesmo nos predomínios do desânimo ela encontra a correnteza dos rios.]
Paulinho Assunção, daqui
29 de dez. de 2017
o vento passa
A casa da mata
1
custa um tempo por a casa em ordem
saber-se de novo em outro lugar
comprimir o pássaro no peito
acomodar as coisas em lugares calados
deixar de ouvir o barulho que não cessa
esta conversa úmida de folhas
o ar morno entrando com insetos
morar demora
até cair feito um besouro
cansado de debater-se contra as paredes
2
uma hora me encontrarei na casa da mata
faz dois dias o vento passa e eu assisto
haverá - quando houver - uma noite sem brisa
os insetos se calarão na marcação da pausa
estarei lá como o náufrago onde a onda não chega
Angela Lago
1
custa um tempo por a casa em ordem
saber-se de novo em outro lugar
comprimir o pássaro no peito
acomodar as coisas em lugares calados
deixar de ouvir o barulho que não cessa
esta conversa úmida de folhas
o ar morno entrando com insetos
morar demora
até cair feito um besouro
cansado de debater-se contra as paredes
2
uma hora me encontrarei na casa da mata
faz dois dias o vento passa e eu assisto
haverá - quando houver - uma noite sem brisa
os insetos se calarão na marcação da pausa
estarei lá como o náufrago onde a onda não chega
Angela Lago
12 de dez. de 2017
como olhas?
una mirada desde la alcantarilla
puede ser una visión del mundo
la rebelión consiste en mirar una rosa
hasta pulverizarse los ojos
Alejandra Pizarnik
16 de out. de 2017
mistério, segredo e muito mais
Sobre meu
braço esquerdo, sua cabeça (leve, não obstante a impressão de peso e de
volume); seu braço direito sob minha axila. A persistente e hábil pressão, em
minha língua, de seus dentes grandes e espaçados. A planta do meu pé esquerdo
brandamente pousada sobre o dorso do seu pé direito. Ingratidão é o prêmio do
mundo – dizem em alguma parte os cantores. Mas eu sou grata, eu sou grata, não
na boca, e sim em toda a minha carne, a tudo o que purgo para chegar a este
minuto, à intensidade com que responde meu corpo à aproximação do corpo deste
homem, à força com que meus quadris o arrastam para mim, ao modo como nos
povoam o bosque e a fauna ligeira do tapete, à cega ânsia com que nos
abraçamos, à temperatura desta hora, que me permite ostentar minha nudez e embeber-me
na sua como se os meus olhos fossem bocas e eu morresse de sede, e vê-lo
desnudo me dessedentasse e intensificasse a minha sede. Também sou grata ao
surdo e polido fulgor de nossos corpos. Ele me olha em silêncio, olha-me de
perto (o azul estriado de ouro dos seus olhos) e sua mão esquerda, descendo
pelo ventre, toca-me a parte interna das coxas. Eu abro as narinas, eu abro os
poros, eu abro a garganta, eu abro as artérias, eu abro um espaço, eu abro
passagem, eu abro as alas, eu abro as asas, eu abro uma fruta, eu abro uma
lucarna, eu abro as janelas, eu abro um portão, eu abro uma rua, eu abro uma
clareira, eu abro uma vereda, eu abro uma estrada, eu abro uma fenda, eu abro
uma vala, um sulco, uma cova, um rego, uma frincha, uma brecha, as pernas, abro
as pernas, as coxas, os pés, os joelhos, abro o sexo e ele invade a minha
carne. Lanço um grito de júbilo.
Osman Lins, Avalovara, p. 209-210
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