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20 de dez. de 2020

além das cordilheiras

 

Cenas de um casamento, Ingmar Bergman (1973)


ADEUS

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastamos tudo menos o silêncio.
Gastamos os olhos com o sal das lágrimas,
gastamos as mãos à força de as apertarmos,
gastamos os relógios e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário, 
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é a verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastamos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
Já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugênio de Andrade

19 de dez. de 2020

nós ao avesso

 


No percurso, te incomodava saber que aquilo que os professores se esforçaram para falar durante a aula já se esvaía na mente dos alunos. E ali, naquele ônibus, olhando para todos eles, você percebia que esta fora sua luta cotidiana, talvez a única que valesse a pena: fazer a sua voz permanecer na cabeça deles o máximo de tempo possível. Entretanto, você tivera a impressão de nunca haver conseguido influenciar ninguém. Você estava com cinquenta e dois anos e tudo que você tinha nas mãos eram os livros, algumas provas e uma vontade doida de beber algo. Você desceu próximo a um boteco que costumava frequentar. Pediu uma cerveja. Em seguida pensou em Elisa. E pensar nela o fazia não prestar atenção no sabor da bebida. Você pensava em Elisa e bebia. Entrava numa espécie de roda-viva. O sabor amargo e a falta de Elisa. Outra cerveja. Em pouco tempo você estava bêbado. Na embriaguez parecia lidar melhor com a perda. A dor é amortecida. Era o que te ajudava a voltar para casa. Alto e flutuante. E depois só tinha tempo para tirar os sapatos antes de deitar na cama. Acordou de ressaca com seu despertador gritando. Estava frio e chuviscava. Ressaca, frio e chuva: a fórmula perfeita para ligar para a escola e mentir que estava doente. Mas não. Você levantou, porque não gostava de faltar. No caminho para a escola sentiu uma espécie de raiva de si mesmo por voltar ao abismo: a falta de Elisa. Mas era assim mesmo. Você já deveria ter aprendido. Quantas decepções afetivas você já tinha passado na vida, você se confortava. Resignou-se e tentou compreender o fim novamente. Regressou ao passado. Analisava as minúcias do relacionamento; as discussões, os silêncios e as mágoas. Não amei certo, você pensava, e se punia. Mas a vida segue porque, mesmo quando se ama errado, ainda temos de viver. O amor não impedia a vida. Continua-se porque os carros não param, homens e mulheres se levantam e  vão trabalhar. Todos os dias. Segue-se, não por bravura ou altivez, mas porque simplesmente não há o que fazer. E não há aí nenhum ensinamento ou lição a aprender. A não ser domar a tristeza e aceitar conviver com ela, você pensava. E, mesmo que Elisa continuasse a vir a seus pensamentos, e nos momentos mais impróprios, você lutava contra eles. Para isso, você precisava concentrar forças nas suas aulas. E talvez essa fosse a sua última lição antes de deixar o magistério: não mais influenciar seus alunos, mas se deixar influenciar por eles. Contagiar-se da ingenuidade deles e perceber com espanto as coisas novamente pela primeira vez. E nas aulas, talvez, superar a rua em que você e Elisa caminhavam, a padaria em que tomavam café, o caixa eletrônico em que pegavam dinheiro, o parque no inverno. Tudo ainda ali dentro de você, ainda cambaleando, você tentando superar numa sala com adolescentes desajustados as sobras de um afeto. Você que um dia pensou que aos cinquenta e dois anos saberia lidar com o fim das coisas. Mas a dor não escolhe idade quando quer doer, você pensava. Na parada, enquanto esperava o ônibus, teve vontade de chorar. Mas você se tornou um homem antigo. E homens antigos não choram em paradas de ônibus. Não por macheza ou para provar sua virilidade, mas porque não fica bem um homem antigo chorar em público, você pensava. Depois da escola, na volta pra casa, mantinha a cabeça baixa, mas ainda assim não chorava. [...] Você sabia que não havia sido um grande professor. Você apenas travou durante anos uma guerra particular, mas cumpriu a tarefa. Não abandonou o barco. E achava que isso já te redimia das aulas ruins que deu. Certa noite você baixou o volume do som, pegou o telefone pensando em ligar para Elisa, mas hesitou. Sempre hesitava. Mas até quando?

Jeferson Tenório, O avesso da pele, p.156-158

9 de dez. de 2020

o mau pedaço

 


Kasi com pássaro, 2018, Júlia Amaral


que nojo me dava

do amor

virando posse, das

pessoas virando cruas, do Pedro não

    entendendo nada com aqueles olhos

    inchados e duros,

seu amor por mim

escorria

virando

Ódio, virando

ímpeto.

[...]

que saudade de quando nada disso tinha

    acontecido

de todos os segundos antes disso ter acontecido. 

[...]

mas para mim era tudo tão

Tarde,

o tempo 

escorria sem

sono das minhas

mãos.


Aline Bei, O peso do pássaro morto, p.54-55

3 de dez. de 2020

( d e s ) p a r ê n t e s e s

Uma espécie de perda 


Usamos a dois: estações do ano, livros e uma música.

As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma cama.

Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados, gastos.

Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos. E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
 idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(– o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um apontamento) sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.

Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.

Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.


Ingeborg Bachmann


30 de nov. de 2020

o que se faz e desfaz

 

Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares, já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente.
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?


Ruy Belo

30 de out. de 2020

isto e aquilo, um corpo, uma vida

Pablo Picasso,  Garota diante do espelho

        Uma mulher de certa idade parada diante do espelho, nua, examinando esta ou aquela parte do corpo. Não faz isso há… vinte anos? Trinta? O ombro esquerdo, que ela projeta para a frente, para ver melhor – nada mau. Sempre teve bons ombros. E boas costas, comparadas – há muito tempo, claro – com as da Vênus de Rokeby. (Existem, talvez, muito poucas mulheres das classes educadas cujas costas não tenham sido comparadas, por amantes cegos de amor, com as da Vênus de Rokeby.) Mas era difícil enxergar as costas: o espelho não era grande. Os seios? Muitas jovens estariam contentes com eles. Mas espere... o que tinha acontecido com eles? Uma mulher pode ter seios como os de Afrodite (afinal pelo menos uma mulher deve ter tido), e a última coisa em que alguém vai pensar, olhando para eles, é em nutrição, mas eles se transformam em confortáveis tetas, e a dona deles pensa: para quê? Para acomodar a cabeça dos netos? Sem dúvida a época certa para aquelas tetas tinha sido quando fora mãe. (O que a Natureza estava aprontando?) Pernas. Bom, não estavam mal agora, mas melhor não pensar no que eram. Na verdade, havia tido um bom corpo, e ele mantinha sua forma (mais ou menos) até ela se movimentar. Então ocorria uma sutil desintegração, e certas áreas, apesar das boas formas, cobriam-se de finas rugas veludosas como um pêssego passado do ponto. Mas tudo isso era irrelevante. O que ela não conseguia encarar (mas que tinha de se forçar a enfrentar) era que qualquer moça, por menos favorecida que fosse, tinha uma coisa que ela não tinha. Jamais teria de novo. Era irrevogável. Não havia nada a fazer. Tinha vivido seu trajeto até esse ponto, e dizer “Bom, todo mundo vive”, não ajudava nada. Tinha vivido seu trajeto cheia de filosofia, como as pessoas acham que deve ser, e depois a carga de profundidade, e ela era como uma daquelas paisagens em que movimentos subterrâneos trazem à superfície uma dúzia de estratos, criados em épocas inteiramente diferentes e até então separados, revelando montanhas feitas de rochas vermelhas, verde-oliva, turquesa, limão, rosa e azul-escuro, todas numa única cadeia. Com toda a sinceridade, ela podia dizer que uma das camadas, ou várias, não se importava com aquela carcaça que envelhecia, mas havia uma outra tão vulnerável quanto a carne das rosas.  [...]
        Há duas fases nessa doença. A primeira quando a mulher olha, olha de perto: sim, aquele ombro; sim, aquele pulso; sim, aquele braço. A segunda quando ela se força a ficar diante de um espelho verdadeiro, para olhar fria e duramente para a mulher envelhecida, e se força a voltar ao espelho, mais e mais, porque sente que a pessoa que está olhando é exatamente a mesma (quando longe do espelho) que ela era aos vinte, trinta, quarenta anos. Ela é exatamente a mesma pessoa que era em menina e em jovem olhando no espelho e contando seus atrativos. Ela tem de insistir que isso é assim, essa é a verdade: não o que eu me lembro – isto é o que estou vendo, isto é o que eu sou. Isto. Isto. 

Doris Lessing, em Amor, de novo, p.254-255

29 de out. de 2020

entranha sinfonia

 

Imagem: da série Uterus de Catharina Suleiman


tu útero
tu foste paciente
como uma meia
enquanto eu guardei em ti
os meus filhos vivos e mortos
e agora
eles querem-te arrancar
como meias inúteis
para onde eu vou
para onde é que eu vou
velha menina
sem ti
útero
minha pegada ensanguentada
minha cozinha de estrogênio
meu saco negro de desejo
para onde posso eu ir
descalça
sem ti
para onde podes tu ir
sem mim


Lucille Clifton
(tradução de Bruno M. Silva, a partir da edição The collected poems of Lucille Clifton 1965-2010)