FRAGMENTOS
1
Me quer? Não me quer? As mãos torcidas
os dedos
despedaçados um a um extraio
assim se tira a sorte enquanto
no ar de maio
caem as pétalas das margaridas
Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e
que a prata dos anos tinja sem perdão
penso
e espero que eu jamais alcance
a impudente idade do bom senso
2
Passa da uma
você deve estar na cama
Você talvez
sinta o mesmo no seu quarto
Não tenho pressa
Para que acordar-te
com o
relâmpago
de mais um telegrama
3
O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano
4
Passa da uma você deve estar na cama
À noite a Via láctea é um Oká de prata
Não tenho pressa para que acordar-te
com o relâmpago de mais um telegrama
como se diz o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano
Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos a história o universo
5
Sei o pulso das palavras a sirene das palavras
Não as que aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam os caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras Parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma carcaça
Maiakóvski (em tradução de Augusto de Campos)
11 de out. de 2016
25 de set. de 2016
mudar de casa como viajar
Dias e noites vagueiam pela eternidade. Assim são os anos que vêm e vão como viajantes que lançam os barcos através dos mares ou cavalgam pela terra. Muitos foram os ancestrais que sucumbiram pela estrada. Também tenho sido tentado há muito pela nuvemovente ventania, tomado por um desejo de sempre partir.
Matsuo Bashô, Fragmentos de "Trilha estreita ao confim"
Matsuo Bashô, Fragmentos de "Trilha estreita ao confim"
19 de ago. de 2016
ao léu
Elogio ao meu marido
suponho que não tem sido fácil viver
comigo também, com meus piques, e altos
e baixos, a minha necessidade de privacidade
orgulho leonino chorando na cama quando você
está tentando dormir e você, interrompendo-me
no meio de mil poemas
chamei o pessoal do seguro?
a vez que você parou um poema
no meio da viagem entre as colinas de nebraska
e no colorado, odetta cantando,
o mundo inteiro cantando em mim
o triunfo da nossa revolução no ar
eu a ponto de anotar aquilo, e você
você está dizendo algo sobre o carburador
e tudo se desfez
mas nos agarramos um ao outro
como se cada um pensasse que o outro fosse um bote
embora à deriva, como nesta casa de barro
não tão grande, de paredes empoeiradas ao redor,
uma chuva de poeira fina contrariando o astral,
o ar fresco e entupindo nossas narinas
penduramos nossas fotos, de mundos tão diversos:
new york collage e posters de são francisco,
colocamos nossos pratos japoneses, talheres chineses
martelamos panos de enxoval indiano sobre a argila
esbarramos nos silêncios de nossas entranhas
desajeitados, de um lugar a outro
como crianças que fogem para brincar
num barco à noite
e o barco escapa das suas amarras,
e eles olham para as estrelas
sobre as quais nada sabem, tentando descobrir
para onde eles estão indo
Diane di Prima, em tradução de Vanderley Mendonça, na
antologia “Meninas que vestiam preto”
2 de ago. de 2016
o incomensurável
um abraço
quando nos encontramos e nos abraçamos por
apenas
alguns segundos, quando coloquei minha cabeça ao
lado
da sua e o seu tronco por poucos instantes se
colou
ao meu tronco, com minha mão pousada nas suas
costas, sobre sua pele, sobre sua coluna
vertebral, nisso que se define normalmente como
um abraço
de cumprimento, de duas pessoas que não se veem
há
algum tempo e por algum tempo se abraçam
para celebrar a alegria do encontro, do
reconhecimento
do rosto, do corpo, da vida mútua, esse abraço
comemora, numa pequena intimidade, um encontro,
ainda que, de modo furtivo, um pequeno lapso de
tempo, dois ou
três segundos, pouca coisa mais ou menos do que
isso, esse abraço que envolve meu tronco no seu
tronco, de
onde brota o seu corpo, de onde nascem os seus
membros
e por onde circulam fluidos e voltagens
elétricas em rajadas ínfimas regulando o tônus que dá integridade ao seu corpo,
que faz com que seu corpo esteja de pé,
na minha frente, comandando seus braços a se
entrelaçarem
nos meus nessa configuração que caracteriza o
abraço, esse e
qualquer outro, nesse abraço em que nossos
corpos se tocaram e
que por parcos segundos senti sob a minha
mão suas costas, sua espinha dorsal e suas
costelas sob meus
dedos, em que senti ou intuí que seu coração
batia ali dentro
comandando a maquinaria do seu corpo,
impulsionando
sua vida, pensamentos, sonhos, memórias, a
prosseguir
no dia, no tempo, sob a minha mão espalmada
em
suas costas, sob a pressão delicada (ou
dedicada) dos
meus dedos, o arcabouço que protege sua vida,
a vida que circula em seu tronco, por míseros
instantes
colados ao meu tronco, quando seus seios se
colaram ao meu peito, quando seu coração
se aproximou do meu pelo tempo que costuma
durar o abraço, na duração dos braços e do
tronco,
na duração do corpo, da mão espalmada sobre suas
costas,
no tempo nem imenso e nem ínfimo que
perdurou
nesse abraço em que se abraçaram as vidas, os
sonhos,
os pensamentos, os sorrisos entrelaçados, como
os braços,
como os troncos aproximados, unos quem sabe,
durante
um espaço de tempo incomensurável, eu diria, mas
efetivamente sentido pelo corpo e transmitido
pelos meios
elétricos e químicos ao lugar em que se dá a
geração
destas palavras, em que brotam as ideias que se
armazenam e perduram no meu corpo, que se
abraçam à minha
vida a partir daquele abraço que pouco ou quase
nada durou em matéria de tempo cronológico, mas
que
insiste ainda agora, aqui, quando me invade a
forma
do seu tronco colado ao meu naquele dia em que
nos
encontramos
Caio Meira
31 de jul. de 2016
acontecer é irreversível
Tenho quebrado copos
Tenho quebrado copos
é o que tenho feito
raramente me machuco embora uma vez sim
uma vez quebrei um copo com as mãos
era frágil demais foi o que pensei
era feito para quebrar-se foi o que pensei
e não: eu fui feita para quebrar
em geral eles apenas se espatifam
na pia entre a louça branca e os talheres
(esses não quebram nunca) ou no chão
espalhando-se então com um baque luminoso
tenho recolhido cacos
tenho observado brevemente seu formato
pensando que acontecer é irreversível
pensando em como é fácil destroçar
tenho embrulhado os cacos com jornal
para que ninguém se machuque
como minha mãe me ensinou
como se fosse mesmo possível
evitar cortes
(mas que não seja eu a ferir)
tenho andado a tentar
não me ferir e não ferir os outros
enquanto esgoto o estoque de copos
mas não tenho quebrado minhas próprias mãos
golpeando os azulejos
não tenho passado a noite
deitada no chão de mármore
estudando as trocas de calor
não tenho mastigado o vidro
procurando separar na boca
o sabor do sangue do sabor do sabão
nem tenho feito uma oração
pelo destino variado
do que era antes um
e por minha força morre múltiplo
tenho quebrado copos
para isso parece deram-me mãos
tenho depois encontrado
cacos que não recolhi
e que identifico por um brilho súbito
no chão da cozinha de manhã
tenho andado com cuidado
com os olhos no chão
à procura de algo que brilhe
e tenho quebrado copos
é o que tenho feito
Ana Martins Marques
Tenho quebrado copos
é o que tenho feito
raramente me machuco embora uma vez sim
uma vez quebrei um copo com as mãos
era frágil demais foi o que pensei
era feito para quebrar-se foi o que pensei
e não: eu fui feita para quebrar
em geral eles apenas se espatifam
na pia entre a louça branca e os talheres
(esses não quebram nunca) ou no chão
espalhando-se então com um baque luminoso
tenho recolhido cacos
tenho observado brevemente seu formato
pensando que acontecer é irreversível
pensando em como é fácil destroçar
tenho embrulhado os cacos com jornal
para que ninguém se machuque
como minha mãe me ensinou
como se fosse mesmo possível
evitar cortes
(mas que não seja eu a ferir)
tenho andado a tentar
não me ferir e não ferir os outros
enquanto esgoto o estoque de copos
mas não tenho quebrado minhas próprias mãos
golpeando os azulejos
não tenho passado a noite
deitada no chão de mármore
estudando as trocas de calor
não tenho mastigado o vidro
procurando separar na boca
o sabor do sangue do sabor do sabão
nem tenho feito uma oração
pelo destino variado
do que era antes um
e por minha força morre múltiplo
tenho quebrado copos
para isso parece deram-me mãos
tenho depois encontrado
cacos que não recolhi
e que identifico por um brilho súbito
no chão da cozinha de manhã
tenho andado com cuidado
com os olhos no chão
à procura de algo que brilhe
e tenho quebrado copos
é o que tenho feito
Ana Martins Marques
13 de jul. de 2016
a mínima inclinação (ou sobre o que dura não)
Não comece. Depois de começar,
você se dará conta de que não existe mais caminho de volta. Mesmo que você
retorne e tente apagar as pegadas dos passos já dados, eles nunca serão
desfeitos. Mesmo que nenhum traço sobre daquelas pisadas, elas foram dadas e, se
não há restos aparentes no chão, em você, ao menos, elas nunca mais se
apagarão. Por isso, é melhor preservar-se ileso, na visão preliminar do começo
e, quem sabe, fingir que se vai começar, para que os tolos pensem que isso de
fato vai acontecer. Você se posta na iminência do começo, ensaia uns gestos que
aparentam prontidão para ele e pronto. Todos irão embora acreditando que dali
certamente sairá um começo, e você fica ali, não começado. Se eles voltarem e
perguntarem por que você ainda não deu o primeiro passo, você continua
ameaçando dá-lo e todos entenderão que isso não aconteceu por razões sérias e
incomunicáveis. Se esse teatro for de difícil execução, retire-se.
Escondendo-se, haverá álibis para o fato de você não ter começado e todos
entenderão sua recusa. Será como se você não só já tivesse começado, mas como
se estivesse no meio. Pense que não começar é a única forma de não disparar um
processo incontornável de sofrimento. Mesmo que você só dê um único passo, será
como colocar a peça errada no tabuleiro de xadrez. Assim são os começos. Não
pense que ao encostar o pé no chão poderá arrepender-se. Basta um gesto; basta
inclinar o corpo um pouco para frente, deslocar o peso das pernas e levantar os
dedos. Não os levante. Mas não pense, por outro lado, que será fácil a decisão
de não começar. Não pense que poderá simplesmente esquecer-se disso. Não. Os
não começadores precisam estar em constante estado de atenção, porque a
qualquer momento você pode começar sem nem se dar conta e todo o trabalho de não
ter começado terá sido desperdício. Não sobrará pedra sobre pedra e você não
será diferente daqueles que nem se importam em começar e vão despreocupadamente
começando qualquer coisa que aparece. Não pense que todo o trabalho de
preparação mudará alguma coisa. Você será como eles. Por isso, não descanse.
Não começar é mais desafiador que o contrário. A vantagem é que o sofrimento é
menor, embora o desgaste tático seja maior. Se o não começador não se mantiver
em estado de prontidão para o não começo, desavisadamente ele corre o risco de,
num passo em falso, começar alguma coisa. E não só qualquer coisa, como justo
aquela que ele mais temia; porque essa é a que fica à espera de um descuido
para, num golpe baixo, disfarçar-se de outra coisa e, quando o não começador
vê, é ela que se anuncia e o retorno é impossível. Os começos são mais
poderosos do que parecem e do que qualquer força de resistência, já que seus
meios são capciosos. Por isso, para evitar o começo, não bastam fortificações.
É preciso armadilhas mínimas, quase invisíveis, para que eles não se entreteçam
pelas beiradas.
Noemi Jaffe, no Livro dos começos
10 de jul. de 2016
falhamos casa não
Falésias
Hoje tivemos
um dia limpo
caminhamos e comemos
em silêncio
buscamos o ponto mais alto
da cidade e falamos
sobre uma casa
que não será construída
falamos sobre essa casa
implantada nas falésias
aberta
aos gritos do mar
falamos
dessa casa
cada vez mais improvável
onde nenhum de nós vai morar
voltamos em silêncio
eu pensando em certos bichos
que só se acasalam
com dificuldade
Ana Martins Marques, em Da
arte das armadilhas, p.33.
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