Ludismo
Quebrar o brinquedo
é mais divertido.
As peças são outros jogos:
construiremos outro segredo.
Os cacos são outros reais
antes ocultos pela forma
e o jogo estraçalhado
se multiplica ao infinito
e é mais real que a integridade: mais lúcido.
Mundos frágeis adquiridos
no despedaçamento de um só.
E o saber do real múltiplo
e o sabor dos reais possíveis
e o livre jogo instituído
contra a limitação das coisas
contra a forma anterior do espelho.
E a vertigem das novas formas
multiplicando a consciência
e a consciência que se cria
em jogos múltiplos e lúcidos
até gerar-se totalmente:
no exercício do jogo
esgotando os níveis do ser.
Quebrar o brinquedo ainda
é mais brincar.
Orides Fontela
9 de mar. de 2017
24 de jan. de 2017
Abraxas
E nesse ponto abrasou-me de repente como aguda chama a
revelação definitiva: todo homem tinha uma “missão”, mas ninguém podia escolher
a sua, delimitá-la ou administrá-la a seu prazer. Era errôneo querer novos
deuses, era completamente errôneo querer dar algo ao mundo. Para o homem
consciente só havia um dever: procurar-se a si mesmo, afirmar-se em si mesmo e
seguir sempre adiante o seu próprio caminho, sem se preocupar com o fim a que
possa conduzi-lo. Tal descoberta comoveu-me profundamente e foi para mim como o
fruto daquela vivência. Muitas vezes havia brincado com imagens do futuro e
havia entressonhado os destinos que me estavam reservados, como poeta talvez ou
talvez como profeta, como pintor, ou de que modo fosse. E tudo isso era um
equívoco. Eu não existia para fazer versos, para rezar ou para pintar. Nem eu
nem nenhum homem existíamos para isso. Tudo era secundário. O verdadeiro ofício
de cada um era apenas chegar até si mesmo. Depois, podia acabar poeta ou louco,
profeta ou criminoso. Isso já não era coisa sua, e além de tudo, em última
instância, carecia de todo alcance. Sua missão era encontrar seu próprio
destino, e não qualquer um, e vive-lo inteiramente até o fim. Tudo o mais era
ficar a meio do caminho, era retroceder para refugiar-se no ideal da
coletividade, era adaptação e medo da própria individualidade interior. Essa
nova imagem ergueu-se claramente diante de mim, terrível e sagrada, mil vezes
vislumbrada, talvez já expressa alguma vez, mas somente agora vivida. Eu era um
impulso da natureza, um impulso em direção ao incerto, talvez do novo, talvez
do nada, e minha função era apenas deixar que esse impulso atuasse, nascido das
profundezas primordiais, sentir em mim sua vontade de fazê-lo meu por completo.
Esta, e somente esta, era a minha função.
Eu havia provado a fundo a solidão. Mas agora pressentia uma
solidão ainda mais profunda, e pressentia-a inevitável.
Herman Hesse, Demian, p.148.
18 de dez. de 2016
incendiar
Q.
Enquanto Copi, sofregamente, segurava o pincel, dois raciocínios
a assustavam: o primeiro era de que havia muita palavra no mundo, muito mais do
que gente.
E o segundo de que o que nos liga ao passado, a memória (que
rege essas inúmeras fantasias eletivas que chamamos de lembranças) empalidece
ao sinal do primeiro desejo.
R.
“Quando você se transformou...”
“Nisso?! Nessa coisa?”
“Não foi isso que...”
“Há duas maneiras de lidar com o desejo: ou você apaga com o
extintor, que é o que as pessoas geralmente fazem, ou você deixa o fogo se
alastrar. Eu resolvi me incendiar.”
“Mas você tinha um bom emprego...”
“Um bom emprego? Jornalista? Em Mendoza? É tudo prostituição,
meu caro, tudo, uns vendem o corpo, outros a cabeça, alguns seu tempo, é tudo
putaria, todo mundo dá o cu.”
“E a sua família?”
“Travesti não tem família, ao menos de onde eu venho, não
mesmo.”
Carlos Henrique Schroeder, As fantasias eletivas
23 de nov. de 2016
sublimação
[ a partir da pergunta-convite da ana]
muitos dizem que é preciso se resguardar e
cultivar a certeza que protege do deslize
foi segunda ou terça ou quarta
esqueço rotineiramente
e também não é impossível
ver com outros olhos
por exemplo
a tua mirada de
canto
como quem
para acertar o alvo
incisivamente
desvia
e finge que desiste
psiu
ainda estou na tua frente
foi rápido
instauramos a bagunça excepcional
resta
a partir da fissura
nadar
andar
até
o porto
a praia
a rua
inteira
adiar não adianta
nada mesmo
o oceano imenso ali
alhures
essa página
areia
fina
em que traço tanto
o maior desejo
fagulha
arrisco
trans
for
mar
eh
outra vez
[a partir de uma outra pergunta-convite]
foi no café se bem me lembro
não
inexata ontem
a mão na alça da xícara
de chá
o tropeço colossal
era para sair do tédio que dança
mos em descompasso
tanto dispêndio as palavras outra vez soltas
alguém ainda tenta encontrar o fio da meada
e consome
taquicardia contínua
você me dizia da resignação maior
conformado, morrer um pouco todo dia
baixar o olhar, os braços pensos
acompanhavam quase rígidos o movimento do corpo
caminhamos ao lado
não
talvez seja isso:
sobre os modos da continuação
a previsão permanente é
sucumbir
o apagão
na iminência
uma questão de tempo
uma questão de pulso
dia e noite
há escapatória?
do esgotamento
ela grita que não entende o que isso quer dizer
amor
não
sinto que devo, muito
masoquista
a carne em frangalhos
chorou e insistiu em sua narrativa
outra vez
mas não sabe como é ser profissional
o que dura mesmo são os fungos na beirada da panela
não
a fórmula alquímica
a carta ridícula
despojos preciosos na intempérie
nossa casa
não
meu alívio é ter uma pergunta para responder
e a possibilidade de calar
o que te cura da dor?
se chegarmos ao ápice, haverá outra versão
possível talvez
desejo
não
paramos por aqui
eh
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