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24 de jun. de 2017

pétala de fina flor

dialética amorosa

nada como uma briga depois da outra
assim panelas e palavras voam pela cozinha
copos misteriosamente somem do armário
e os rostos se franzem e vizinhos espiam
e abaixam o volume da tv pra poderem ouvir melhor
e fulano é isso e sicrano aquilo e a rua fica muda e respira silenciosamente enquanto portas batem bruscamente
e tudo fica escuro e respira-se fundo muito fundo
pra q se possa deixar ânimo e amor pras próximas brigas
q virão feito seriado feito novela feito os domingos desperdiçados ao lado de sorrisos nada felizes no almoço
o amor é belo e feroz feito a grama verde do vizinho q se separou ainda ontem da esposa

Sérgio Villa Matta

7 de mai. de 2017

espichada na tela

Natureza morta

Os livros são dorsos de estantes distantes quebradas.
Estou dependurada na parede feita um quadro.
Ninguém me segurou pelos cabelos.
Puseram um prego em meu coração para que eu não me mova
Espetaram, hein? a ave na parede
Mas conservaram meus olhos
É verdade que eles estão parados,
Como os meus dedos na mesma frase.
Espicharam-se em coágulos azuis.
Que monótono o mar!
Os meus pés não dão mais um passo.
O meu sangue chorando,
As crianças gritando,
Os homens morrendo,
O tempo andando,
As luzes fulgindo,
As casas subindo,
O dinheiro circulando,
O dinheiro caindo.
Os namorados passando, passeando,
O lixo aumentando,
Que monótono o mar!

Procurei acender de novo o cigarro.
Por que o poeta não morre?
Por que o coração engorda?
Por que as crianças crescem?
Por que este mar idiota não cobre o telhado das casas?
Por que existem telhados e avenidas?
Por que se escrevem cartas e existe o jornal?
Que monótono o mar!
Estou espichada na tela como um monte de frutas apodrecendo.
Se eu ainda tivesse unhas
Enterraria os meus dedos nesse espaço branco.
Vertem os meus olhos uma fumaça salgada,
Estou com tanto frio, e não tenho ninguém...
Nem a presença dos corvos.

Patrícia Galvão (publicado com o pseudônimo de Solange Sohl)

26 de abr. de 2017

as extinções as feridas os prazeres

O livro rosa do coração dos trouxas

I.
eu quando corto relações
corto relações.
não tem essa de
briga de torcida
todos os
sábados.
é a extinção do estádio.
vejo as forças
que atuam, a tesoura,
o papel,
a vontade de cortar.
tudo é provocação?
então embrulha
tua taquicardia
num sorvete de amêndoas,
reza que derreta.
quando lembro do
corte revivo a
ferida.
melhor não.
o corte é definitivo,
a dor retorna em forma
de milão madri
ou liverpool
quando convocada.
ricardo
lembra do teu passado
só se te dá
prazer.

[...]

Angélica Freitas, em Um útero é do tamanho de um punho


11 de abr. de 2017

necessário descansar

Canção

O peso do mundo
            é o amor.
Sob o fardo
            da solidão,
sob o fardo
            da insatisfação

            o peso
o peso que carregamos
            é o amor.

Quem poderia negá-lo?
            Em sonhos
nos toca
            o corpo,
em pensamentos
            constrói
um milagre,
            na imaginação
aflige-se
            até tornar-se
humano –

sai para fora do coração
            ardendo de pureza –
pois o fardo da vida
            é o amor,

mas nós carregamos o peso
            cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
            finalmente
temos que descansar nos braços
            do amor.

Nenhum descanso
            sem amor,
nenhum sono
            sem sonhos
de amor –
            quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
            ou por máquinas,
o último desejo
            é o amor
- não pode ser amargo
            não pode ser negado
não pode ser contido
            quando negado:

o peso é demasiado

- deve dar-se
sem nada de volta
            assim como o pensamento
é dado
            na solidão
em toda a excelência
            do seu excesso.

Os corpos quentes
            brilham juntos
na escuridão,
            a mão se move
para o centro
            da carne,
a pele treme
            na felicidade
e a alma sobre
            feliz até o olho –

sim, sim
            é isso que
eu queria,
            eu sempre quis,
eu sempre quis
            voltar
ao corpo
            em que nasci.



Allen Ginsberg, em Uivo e outros poemas

9 de mar. de 2017

jogo de cacos

Ludismo

Quebrar o brinquedo
é mais divertido.
As peças são outros jogos:
construiremos outro segredo.
Os cacos são outros reais
antes ocultos pela forma
e o jogo estraçalhado
se multiplica ao infinito
e é mais real que a integridade: mais lúcido.

Mundos frágeis adquiridos
no despedaçamento de um só.
E o saber do real múltiplo
e o sabor dos reais possíveis
e o livre jogo instituído
contra a limitação das coisas
contra a forma anterior do espelho.

E a vertigem das novas formas
multiplicando a consciência
e a consciência que se cria
em jogos múltiplos e lúcidos
até gerar-se totalmente:
no exercício do jogo
esgotando os níveis do ser.
Quebrar o brinquedo ainda
é mais brincar.

Orides Fontela

24 de jan. de 2017

Abraxas

        E nesse ponto abrasou-me de repente como aguda chama a revelação definitiva: todo homem tinha uma “missão”, mas ninguém podia escolher a sua, delimitá-la ou administrá-la a seu prazer. Era errôneo querer novos deuses, era completamente errôneo querer dar algo ao mundo. Para o homem consciente só havia um dever: procurar-se a si mesmo, afirmar-se em si mesmo e seguir sempre adiante o seu próprio caminho, sem se preocupar com o fim a que possa conduzi-lo. Tal descoberta comoveu-me profundamente e foi para mim como o fruto daquela vivência. Muitas vezes havia brincado com imagens do futuro e havia entressonhado os destinos que me estavam reservados, como poeta talvez ou talvez como profeta, como pintor, ou de que modo fosse. E tudo isso era um equívoco. Eu não existia para fazer versos, para rezar ou para pintar. Nem eu nem nenhum homem existíamos para isso. Tudo era secundário. O verdadeiro ofício de cada um era apenas chegar até si mesmo. Depois, podia acabar poeta ou louco, profeta ou criminoso. Isso já não era coisa sua, e além de tudo, em última instância, carecia de todo alcance. Sua missão era encontrar seu próprio destino, e não qualquer um, e vive-lo inteiramente até o fim. Tudo o mais era ficar a meio do caminho, era retroceder para refugiar-se no ideal da coletividade, era adaptação e medo da própria individualidade interior. Essa nova imagem ergueu-se claramente diante de mim, terrível e sagrada, mil vezes vislumbrada, talvez já expressa alguma vez, mas somente agora vivida. Eu era um impulso da natureza, um impulso em direção ao incerto, talvez do novo, talvez do nada, e minha função era apenas deixar que esse impulso atuasse, nascido das profundezas primordiais, sentir em mim sua vontade de fazê-lo meu por completo. Esta, e somente esta, era a minha função.
     Eu havia provado a fundo a solidão. Mas agora pressentia uma solidão ainda mais profunda, e pressentia-a inevitável.


Herman Hesse, Demian, p.148.

18 de dez. de 2016

incendiar

Q.
Enquanto Copi, sofregamente, segurava o pincel, dois raciocínios a assustavam: o primeiro era de que havia muita palavra no mundo, muito mais do que gente.
E o segundo de que o que nos liga ao passado, a memória (que rege essas inúmeras fantasias eletivas que chamamos de lembranças) empalidece ao sinal do primeiro desejo.


R.
“Quando você se transformou...”
“Nisso?! Nessa coisa?”
“Não foi isso que...”
“Há duas maneiras de lidar com o desejo: ou você apaga com o extintor, que é o que as pessoas geralmente fazem, ou você deixa o fogo se alastrar. Eu resolvi me incendiar.”
“Mas você tinha um bom emprego...”
“Um bom emprego? Jornalista? Em Mendoza? É tudo prostituição, meu caro, tudo, uns vendem o corpo, outros a cabeça, alguns seu tempo, é tudo putaria, todo mundo dá o cu.”
“E a sua família?”
“Travesti não tem família, ao menos de onde eu venho, não mesmo.”



Carlos Henrique Schroeder, As fantasias eletivas