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14 de jan. de 2021

fazendo estrago

 


André Masson, Death arena


Preparo para arena

aqui meus crimes não seriam de amor
ana cristina césar

te ensinaria a correr os meus peitos como eles gostam de ser corridos.
me faria didática. abriria uma exceção.
te mostraria como meus cabelos precisam ser agarrados.
seria paciente. desperdiçaria meu tempo.
te guiaria enquanto você se perde sem perceber.
você é um toureiro que vacilou por um segundo.
não escapou.
nós sabemos o que acontece aos distraídos.
agora é aceitar o chifre atravessar a sua mão violentamente.
o que te resta é acolher o gosto metálico na boca.
salivar bem.
a dor te escolheu dessa vez.
lamba o sangue, chupe os dedos.
não me chame de amor.


Natasha Félix, copiado daqui

3 de jan. de 2021

parte




Tenho a certeza
De que entre nós tudo acabou.
- Não há bem que sempre dure,
E o meu, bem pouco durou.

Não levantes os teus braços
Para de novo cingir
A minha carne de seda;
- Vou deixar-te, vou partir!

E se um dia te lembrares
Dos meus olhos cor de bronze
E do meu corpo franzino,

Acalma
A tua sensualidade
Bebendo vinho e cantando
Os versos que te mandei
Naquela tarde cinzenta!

Adeus!
Quem fica sofre, bem sei;
Mas sofre mais quem se ausenta!


Antonio Botto


28 de dez. de 2020

ou ou

 

Imagem de Raisa Christina



É tudo tão simples,

sim, era tão simples,

é tão evidente

que mal consigo acreditar.

Para isto serve o corpo:

ou me tocas ou não me tocas,

ou me abraças ou me afastas.

O resto é para os loucos.


Patrizia Cavalli 

(Um pouco do meu sangue. Antologia de poesia italiana, edição Contracapa, seleção e tradução de João Coles)


um trator

 

Desenho: Priscilla Menezes

Outra vez o amor terminou


Outra vez o amor terminou, como uma boa safra de laranjas,


Ou como uma boa temporada de escavações, que extraiu das profundezas 

Coisas comovidas que buscavam o esquecimento. 


Outra vez o amor terminou. E como depois de se demolir

Uma casa grande e retirar os escombros, visitamos

O terreno vazio e quadrado e dizemos: como era pequeno 

O lugar onde ficava a casa 

Com tantos andares e tantas pessoas. 


E dos vales distantes chega


O som de um trator solitário,


E do passado distante chega o bater


Do garfo no prato de porcelana, misturando


E batendo gema de ovo com açúcar para o menino, 

E bate e bate. 


Yehuda Amichai


25 de dez. de 2020

espólio

Mulher que diz tchau

Levo comigo um maço vazio e amassado de Republicana e uma revista velha que ficou por aqui. Levo comigo as duas últimas passagens de trem.

Levo comigo um guardanapo de papel com minha cara que você desenhou, da minha boca sai um balãozinho com palavras, as palavras dizem coisas engraçadas.

Também levo comigo uma folha de acácia recolhida na rua, uma outra noite, quando caminhávamos separados pela multidão.

E outra folha, petrificada, branca, com um furinho como uma janela, e a janela estava fechada pela água e eu soprei e vi você e esse foi o dia em que a sorte começou.

Levo comigo o gosto do vinho na boca. (Por todas as coisas boas, dizíamos, todas as coisas cada vez melhores que nos vão acontecer.)

Não levo nem uma única gota de veneno. Levo os beijos de quando você partia (eu nunca estava dormindo, nunca).

E um assombro por tudo isso que nenhuma carta, nenhuma explicação, podem dizer a ninguém o que foi.


Eduardo Galeano

21 de dez. de 2020

praia da solidão

 



portanto por vezes os afogados

voltam à tona de água

pois desejam de novo atirar-se

ainda não esgotaram o desespero

ainda não esperam completamente

ainda temem que nada chegue

não sabem ainda que já ninguém virá

que mesmo  o mergulho foi em vão

que tudo a água lava, só a vida não


Bénédicte Houart


20 de dez. de 2020

além das cordilheiras

 

Cenas de um casamento, Ingmar Bergman (1973)


ADEUS

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastamos tudo menos o silêncio.
Gastamos os olhos com o sal das lágrimas,
gastamos as mãos à força de as apertarmos,
gastamos os relógios e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário, 
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é a verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastamos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
Já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugênio de Andrade