hoje gostava:
andar de mão dada contigo
numa praia luminosa
sem dizer nada.
Paulo Condessa, O céu dentro da boca
hoje gostava:
andar de mão dada contigo
numa praia luminosa
sem dizer nada.
Paulo Condessa, O céu dentro da boca
Tenho a certeza
De que entre nós tudo acabou.
- Não há bem que sempre dure,
E o meu, bem pouco durou.
Não levantes os teus braços
Para de novo cingir
A minha carne de seda;
- Vou deixar-te, vou partir!
E se um dia te lembrares
Dos meus olhos cor de bronze
E do meu corpo franzino,
Acalma
A tua sensualidade
Bebendo vinho e cantando
Os versos que te mandei
Naquela tarde cinzenta!
Adeus!
Quem fica sofre, bem sei;
Mas sofre mais quem se ausenta!
Antonio Botto
É tudo tão simples,
sim, era tão simples,
é tão evidente
que mal consigo acreditar.
Para isto serve o corpo:
ou me tocas ou não me tocas,
ou me abraças ou me afastas.
O resto é para os loucos.
Patrizia Cavalli
(Um pouco do meu sangue. Antologia de poesia italiana, edição Contracapa, seleção e tradução de João Coles)
Outra vez o amor terminou
Outra vez o amor terminou, como uma boa safra de laranjas,
Ou como uma boa temporada de escavações, que extraiu das profundezas
Coisas comovidas que buscavam o esquecimento.
Outra vez o amor terminou. E como depois de se demolir
Uma casa grande e retirar os escombros, visitamos
O terreno vazio e quadrado e dizemos: como era pequeno
O lugar onde ficava a casa
Com tantos andares e tantas pessoas.
E dos vales distantes chega
O som de um trator solitário,
E do passado distante chega o bater
Do garfo no prato de porcelana, misturando
E batendo gema de ovo com açúcar para o menino,
E bate e bate.
Yehuda Amichai
Mulher que diz tchau
Levo comigo um maço vazio e amassado de Republicana e uma revista velha que ficou por aqui. Levo comigo as duas últimas passagens de trem.
Levo comigo um guardanapo de papel com minha cara que você desenhou, da minha boca sai um balãozinho com palavras, as palavras dizem coisas engraçadas.
Também levo comigo uma folha de acácia recolhida na rua, uma outra noite, quando caminhávamos separados pela multidão.
E outra folha, petrificada, branca, com um furinho como uma janela, e a janela estava fechada pela água e eu soprei e vi você e esse foi o dia em que a sorte começou.
Levo comigo o gosto do vinho na boca. (Por todas as coisas boas, dizíamos, todas as coisas cada vez melhores que nos vão acontecer.)
Não levo nem uma única gota de veneno. Levo os beijos de quando você partia (eu nunca estava dormindo, nunca).
E um assombro por tudo isso que nenhuma carta, nenhuma explicação, podem dizer a ninguém o que foi.
Eduardo Galeano
portanto por vezes os afogados
voltam à tona de água
pois desejam de novo atirar-se
ainda não esgotaram o desespero
ainda não esperam completamente
ainda temem que nada chegue
não sabem ainda que já ninguém virá
que mesmo o mergulho foi em vão
que tudo a água lava, só a vida não
Bénédicte Houart